Kaleidoscópio Literário
                                a expressão de Kathleen Lessa
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Meu Diário
12/08/2014 09h16
RUMORES D'AMOR (Péricles Alves de Oliveira)

 

 

       RUMORES D'AMOR*

 


Amar deveria
ser um ato incondicional,
solidário e sem muitos
faroleios;

os regozijos demasiados
– lançado a ares, mares e vales –
sobre o amor mais
me parecem

uma grande forçada
de barra, para encobrir atuações
dissimuladas pelos teatros
da vida.

Portanto, como
não nos é possível haver a alheia
pureza dos ventos
e das nuvens,

mas sim o mórbido
apetite por imagens de toda ordem;
geralmente alguém acaba
mesmo é com as asas

quebradas.

 

Péricles Alves de Oliveira

 

*(interação com o poema "Enquanto...", de Kathleen Lessa)


Publicado por KATHLEEN LESSA em 12/08/2014 às 09h16
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
11/08/2014 10h29
DA NATUREZA POÉTICA (Péricles Alves de Oliveira)

 

       DA NATUREZA POÉTICA*

 

 

Somos poetas,
testemunhas de brancos úberes
e de cômodos anônimos
e escuros;

somos poetas,
dia após dia, em peleja bravia
entre amores estelares
e ardores genitais;

somos poetas,
entre pazes e guerras,
flores e pedras, voos e quedas,
sonhos e merdas;

somos poetas,
conhecedores dos cantos dos anjos
e das valquírias, e dos dolorosos
uivos dos cães às sombras
vazias.

Sim, somos poetas, amiga,
e nossas horas são de chumbos líquidos,
e nossos versos são farrapos
feitos de lamparineiras
névoas;

e antes nos convenha
que sejamos, dolorosa e angustiadamente,
assim – muitas vezes ininteligíveis
ou alucinados –

que nos deitamos
em barca à nau no mar desta vida,
com nossas tênues luzes
apagadas.


Péricles Alves de Oliveira

 

*(interação com o poema "Naturezas mortas", de Kathleen Lessa)

 

 


Publicado por KATHLEEN LESSA em 11/08/2014 às 10h29
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11/08/2014 10h09
APENAS TALVEZ (Péricles Alves de Oliveira)

    

          APENAS TALVEZ*

 

 

Seja como uma sublime
melodia nunca ressoada, ou um suave
aroma desconhecido
o amor,

que não se sabe
exatamente de onde vêm,
nem como ou por que

nos encanta;

mas que,
quando chega, ilumina-nos os sentidos
– inclusive aos cômodos
mais escuros –,

deixando-nos com portas,
e janelas, e corações, e fogos, e sonhos
e esperanças a transcenderem
escancarados;

e que, às vezes,
faz-nos crer que o ser humano
quiçá não seja assim
tão horrível.


Péricles Alves de Oliveira

 


*(interação com o poema "Talvez uma vez", de Kathleen Lessa)

 


Publicado por KATHLEEN LESSA em 11/08/2014 às 10h09
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10/08/2014 14h10
FELICIDADE CLANDESTINA (Clarice Lispector)


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não
bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade! Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei
na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Publicado por KATHLEEN LESSA em 10/08/2014 às 14h10
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26/07/2014 18h39
SUSSURROS (Péricles Alves de Oliveira)

 

SUSSURROS*

 

 

Olhares de bilhões
clareiam, com seus faróis - sencientes -,
as casualidades alheias
das sombras;

 

pontes se constroem
cada vez mais densas - e a todo momento -
com suas magníficas ilusões
fluorescentes;

 

entremeio a tudo,
um poeta e uma poetisa se veem - distantemente –
e se aproximam com a paixão enferma
de seus versos.

 

Péricles Alves de Oliveira


*(interação com o poema "Sussurros", de Kathleen Lessa)


Publicado por KATHLEEN LESSA em 26/07/2014 às 18h39
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Os textos da autora têm registro no ISBN. Plágio é crime.