Kaleidoscópio Literário
                                a expressão de Kathleen Lessa
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Meu Diário
30/10/2013 05h57
OS OBJETOS (Lygia Fagundes Telles)

Finalmente pousou o olhar no globo de vidro e estendeu a mão.
- Tão transparente. Parece uma bolha de sabão, mas sem aquele colorido de bolha refletindo a janela, tinha sempre uma janela nas bolhas que eu soprava. O melhor canudo era o de mamoeiro. Você também não brincava com bolhas? Hein, Lorena?
Ela esticou entre os dedos um longo fio de linha vermelha preso à agulha. Deu um nó na extremidade da linha e, com a ponta da agulha, espetou uma conta da caixinha aninhada no regaço. Enfiava um colar.
- Que foi?
Como não viesse a resposta, levantou a cabeça. Ele abria a boca, tentando cravar os dentes na bola de vidro. Mas os dentes resvalavam, produzindo o som fragmentado de pequenas castanholas.
- Cuidado, querido, você vai quebrar os dentes!
Ele rolou o globo até a face e sorriu.
- Aí eu compraria uma ponte de dentes verdes como o mar com seus peixinhos ou azuis como o céu com suas estrelas, não tinha uma história assim? Que é que era verde como o mar com seus peixinhos?
- O vestido que a princesa mandou fazer para a festa.
Lentamente ele girou o globo entre os dedos, examinando a base pintalgada de cristais vermelhos e verdes.
- Como um campo de fores. Para que serve isto, Lorena?
- É um peso de papel, amor.
- Mas se não está pesando em nenhum papel - estranhou ele, lançando um olhar à mesa. Pousou o globo e inclinou-se para a imagem de um anjo dourado, deitado de costas, os braços abertos. - E este anjinho? O que significa este anjinho?
Com a ponta da agulha ela tentava desobstruir o furo da conta de coral. Franziu as sobrancelhas.
- É um anjo, ora.
- Eu sei. Mas para que serve? - insistiu. E apressando-se antes de ser interrompido: - Veja, Lorena, aqui na mesa este anjinho vale tanto quanto o peso de papel sem papel ou aquele cinzeiro sem cinza, quer dizer, não tem sentido nenhum. Quando olhamos para as coisas, quando tocamos nelas é que começam a viver como nós, muito mais importantes do que nós, porque continuam. O cinzeiro recebe a cinza e fica cinzeiro, o vidro pisa o papel e se impõe, esse colar que você está enfiando... É um colar ou um terço?
- Um colar.
- Podia ser um terço?
- Podia.
- Então é você que decide. Este anjinho não é nada, mas se toco nele vira anjo mesmo, com funções de anjo. - Segurou-o com força pelas asas. - Quais são as funções de um anjo?
Ela deixou cair na caixa a conta obstruída e escolheu outra. Experimentou o furo com a ponta da agulha.
- Sempre ouvi dizer que anjo é o mensageiro de Deus.
-Tenho então uma mensagem para Deus - disse ele e encostou os lábios na face da imagem. Soprou três vezes, cerrou os olhos e moveu os lábios murmurejantes. Tateou-lhe as feições como um cego. - Pronto, agora sim, agora é um anjo vivo.
- E o que foi que você disse a ele?
- Que você não me ama mais.
Ela fcou imóvel, olhando. Inclinou-se para a caixinha de contas.
- Adianta dizer que não é verdade?
- Não, não adianta. - Colocou o anjo na mesa. E apertou os olhos molhados de lágrimas, de costas para ela e inclinado para o abajur. - Veja, Lorena, veja... Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito? - perguntou e tomou a adaga entre as mãos. Voltou-se, subitamente animado.

- É árabe, hein, Lorena? Uma meia-lua de prata tão aguda... Fui eu que descobri esta adaga, lembra? Estava na vitrina, quase escondida debaixo de uma bandeja, lembra?
Ela tomou entre as pontas dos dedos o fio de coral e balançou-o num movimento de rede.
- Ah, não fale isso! Se você soubesse como gostei daquela bandeja, acho que nunca mais vou gostar de uma coisa assim... Se pudesse, tomava já um avião, voltava lá no antiquário do grego barbudo e saía com ela debaixo do braço. As alças eram cobrinhas se enroscando em folhas e cipós, umas cobrinhas com orelhas, fiquei apaixonada pelas cobrinhas.
- Mas por que você não comprou?
- Era caríssima, amor. Nossos dólares estavam no fim, o pouco que restou só deu para essas bugigangas.
- Fale baixo, Lorena, fale baixo! - suplicou ele num tom que a fez levantar a cabeça num sobressalto. Tranquilizou-se quando o viu sacudindo as mãos, afetando pânico. - Chamar a adaga e o anjo de bugigangas, que é isso! O anjo vai correndo contar para Deus.
- Não é um anjo intrigante - advertiu, encarando-o. - E antes que me esqueça, você diz que se ninguém nos ama, viramos coisa fora de uso, sem nenhuma significação, certo? Pois saiba o senhor que muito mais importante do que sermos amados é amar, ouviu bem? É o que nos distingue desse peso de papel que você vai fazer o favor de deixar em cima da mesa antes que quebre, sim?
- O vidro já está ficando quente - disse e fechou o globo nas mãos. Levou-o ao ouvido, inclinou a cabeça e falou brandamente como se ouvisse o que foi dizendo: - Quando eu era criança, gostava de comer pasta de dente.
- Que marca?
- Qualquer marca. Tinha uma com sabor de hortelã, era ardido demais e eu chorava de sofrimento e gozo. Minha irmãzinha que tinha dois anos comia terra.
Ela riu.
- Que família!
Ele riu também, mas logo ficou sério. Sentou-se diante dela, juntou as pernas e colocou o globo nos joelhos. Cercou-o com as mãos em concha, num gesto de proteção. Inclinou-se, bafejando sobre o globo.
- Lorena, Lorena, é uma bola mágica!
Voltada para a luz, ela enfiava uma agulha. Umedeceu a ponta da linha, ergueu a agulha na altura dos olhos estrábicos na concentração e fez a primeira tentativa. Falhou. Mordiscou de novo a linha e com um gesto incisivo foi aproximando a linha da agulha. A ponta endurecida do fio varou a agulha sem obstáculo.
- A cópula.
- Que foi? - perguntou ela, relaxando os músculos. Voltou-se satisfeita para a caixa de contas. - Que foi, amor?
Ele cobriu o globo com as mãos. Bafejou sobre elas.
- É uma bola de cristal, Lorena - murmurou com voz pesada. Suspirou gravemente. - Por enquanto só vejo assim uma fumaça, tudo tão embaçado...
- Insista, Miguel. Não está clareando?
- Mais ou menos... espera, a fumaça está sumindo, agora está tão mais claro, puxa, que nítido! O futuro, Lorena, estou vendo o futuro! Vejo você numa sala... é esta sala! Você está de vermelho, conversando com um homem.
- Que homem?
- Espera, ele ainda está um pouco longe... Agora vejo, é seu pai. Ele está aflito e você procura acalmá-lo.
- Por que está aflito?
- Porque ele quer que você me interne e você está resistindo, mas tão sem convicção. Você está cansada, Lorena querida, você está quase chorando e diz que estou melhor, que estou melhor...
Ela endureceu a fisionomia. Limpou a unha com a ponta da agulha.
- E daí?
- Daí seu pai disse que não melhorei coisa nenhuma, que não há esperança - repetiu ele inclinando-se, as mãos nos olhos em posição de binóculo postado no globo. - Espera, está entrando alguém de modo tão esquisito... eu, sou eu! Estou entrando de cabeça para baixo, andando com as mãos, plantei uma bananeira e não consegui voltar.
Ela enrolou o fio de contas no pescoço, segurando firme a agulha para as contas não escaparem. Riu, alisando as contas.
- Plantar bananeira justo nessa hora, amor? Por que você não ficou comportadinho? Hum?... E o que foi que meu pai fez?
- Baixou a cabeça para não me ver mais. Você então me olhou, Lorena. E não achou nenhuma graça em mim. Antes você achava.
Vagarosamente ela foi recolhendo o fio. Deslizou as pontas dos dedos pelas contas maiores, alinhando-as.
- Fico sempre com medo que você desabe e quebre o vaso, os copos. E depois, cai tudo dos seus bolsos, uma desordem.
Ele recolocou o peso na mesa. Encostou a cabeça na poltrona e ficou olhando para o teto.
- Tinha um lustre na vitrina do antiquário, lembra? Um lustre divertido, cheio de pingentes de todas as cores, uns cristaizinhos balançando com o vento, blim-blim... Estava ao lado da gravura.
- Que gravura?
- Aquela já carunchada, tinha um nome pomposo, Os Funerais do Amor, em italiano fica bonito, mas não sei mais como é em italiano. Era um cortejo de bailarinos descalços carregando guirlandas de fores, como se estivessem indo para uma festa. Mas não era uma festa, estavam todos tristes, os amantes separados e chorosos atrás do amor morto, um menininho encaracolado e nu, estendido numa rede. Ou num coche?... Tinha fores espalhadas pela estrada, o cortejo ia indo por uma estrada. Um fauno menino consolava a amante tão pálida, tão dolorida...
Ela concentrou-se.
- Esse quadro estava na vitrina?
- Perto do lustre que fazia blim-blim.
- Não sei, mas assim como você descreveu é triste demais. Juro que não gostaria de ter um quadro desses em casa.
- Mais triste ainda era o anão.
- Tinha um anão na gravura?
- Não, ele não estava na gravura, estava perto.
- Mas... era um anão de jardim?
- Não, era um anão de verdade.
- Tinha um anão na loja?
- Tinha. Estava morto, um anão morto, de smoking, o caixão estava na vitrina. Luvas brancas e sapatinhos de fivela. Tudo nele era brilhante, novo, só as rosas estavam velhas. Não deviam ter posto rosas assim velhas.
- Eram rosas brancas? - perguntou ela guardando o fio de contas na caixa. Baixou a tampa com um baque metálico.
- Eram rosas brancas?
- Brancas.
- As rosas brancas murcham mais depressa. E fazia calor. Ele inclinou a cabeça para o peito e assim ficou, imóvel, os olhos cerrados, as pálpebras crispadas. O cigarro apagou-se entre seus dedos.
- Lorena...
- Hum?
- Vamos tomar um chá. Um chá com biscoitos, quero biscoitos.
Ela levantou-se. Fechou o livro que estava lendo.
- Ótimo, faço o chá. Só que o biscoito acabou, posso arrumar umas torradas, bastante manteiga, bastante sal. Hum?
- Eu vou comprar os biscoitos - disse ele, tomando-lhe a cabeça entre as mãos. - Minha linda Lorena. Biscoitos para a linda Lorena.
Ela desvencilhou-se rápida.
- Vou pôr água para ferver. Pega o dinheiro, está na minha bolsa.
- No armário?
- Não, em cima da cama, uma bolsa verde.
Ele foi ao quarto, abriu a bolsa e ficou olhando para o interior dela. Tirou o lenço manchado de ruge. Aspirou-lhe o perfume. Deixou cair o lenço na bolsa, colocou-a com cuidado no mesmo lugar e voltou para a sala. Pela porta entreaberta da cozinha pôde ouvir o jorro da torneira. Saiu pisando leve.
No elevador, evitou o espelho. Ficou olhando para os botões, percorrendo com o dedo um por um até chegar ao botão preto com a letra T, invisível de tão gasta. O elevador já descia e ele continuava com o dedo no botão, sem apertá-lo, mas percorrendo-o num movimento circular, acariciante. Quando ela gritou, só seus olhos se desviaram na direção da voz vindo lá de cima e tombando já meio apagada no poço.
- Miguel, onde está a adaga?! Está me ouvindo, Miguel? A adaga!
Ele abriu a porta do elevador.
- Está comigo.
O porteiro ouviu e foi-se afastando de costas. Teve um gesto de exagerada cordialidade.
- Uma bela noite! Vai passear um pouco?
Ele parou, olhou o homem. Apressou o passo na direção da rua.

 

(in “Antes do Baile Verde”, livro de contos de Lygia Fagundes Telles)

                                    


Publicado por KATHLEEN LESSA em 30/10/2013 às 05h57
Copyright © 2013. Todos os direitos reservados.
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06/09/2013 01h40
PENSAMENTO DE BOB MARLEY



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06/09/2013 01h24
PENSAMENTO DE CORA CORALINA



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10/08/2013 19h02
SOBRE A TRANSITORIEDADE (S.Freud)

Belíssimo texto de Freud (1916/1915), retirado do vol XIV das Obras Completas – Ed. Imago, para refletirmos sobre a transitoriedade da vida e sobre a inevitável participação de Cronos e Kairos, os deuses gregos do tempo, com os quais, como canta Caetano, devemos entrar em acordo
para que possamos ser dignos do prazer legítimo... (*)

 

 
Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.
A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência, pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz à rebelião contra o fato consumado. Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição.
Mas essa exigência de imortalidade, por ser tão obviamente um produto dos nossos desejos, não pode reivindicar seu direito à realidade; o que é penoso pode, não obstante, ser verdadeiro. Não vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceção em favor do que é belo e perfeito. Não deixei, porém, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda de seu valor.
Pelo contrário, implica um aumento! O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.
Essas considerações me pareceram incontestáveis, mas observei que não causara impressão quer no poeta quer em meu amigo. Meu fracasso levou-me a inferir que algum fator emocional poderoso se achava em ação, perturbando-lhes o discernimento, e acreditei, depois, ter descoberto o que era. O que lhes estragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idéia de que toda essa beleza era transitória comunicou a esses dois espíritos sensíveis uma antecipação de luto pela morte dessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que é penoso, sentiram que em sua fruição de beleza interferiam pensamentos sobre sua transitoriedade.
O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura tão natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psicólogos, porém, o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenômenos que por si sós não podem ser explicados, mas a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades. Possuímos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor – que denominamos de libido – que nas etapas iniciais do desenvolvimento é dirigido no sentido de nosso próprio ego. Depois, embora ainda numa época muito inicial, essa libido é desviada do ego para objetos, que são assim, num certo sentido, levados para nosso ego. Se os objetos forem destruídos ou se ficarem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (nossa libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistério para nós o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir um processo tão penoso, até agora não fomos capazes de formular qualquer hipótese para explicá-lo. Vemos apenas que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem à mão. Assim é o luto.
Minha palestra com o poeta ocorreu no verão antes da guerra. Um ano depois, irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis.
Não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou, que o amor pela nossa pátria, nossa afeição pelos que se acham mais próximos de nós e nosso orgulho pelo que nos é comum, subitamente se tenham tornado mais vigorosos. Contudo, será que aqueles outros bens, que agora perdemos, realmente deixaram de ter qualquer valor para nós por se revelarem tão perecíveis e tão sem resistência? Isso parece ser o caso de muitos de nós; só que, na minha opinião, mais uma vez, erradamente. Creio que aqueles que pensam assim, e parecem prontos a aceitar uma renúncia permanente porque o que era precioso revelou não ser duradouro, encontram-se simplesmente num estado de luto pelo que se perdeu. O luto, como sabemos, por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes.
(Sigmund Freud)
 
 
 
imagem: Ieda Sampaio

Publicado por KATHLEEN LESSA em 10/08/2013 às 19h02
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13/07/2013 19h10
AMIGO (Roseana Murray)

 

 

No rumo certo do vento,
amigo é nau de se chegar
em lugar azul.
Amigo é esquina
onde o tempo para
e a Terra não gira,
antes paira,
em doçura contínua.


Oceano tramando sal,
mel inventando fruto,
no rumo certo do vento.
Amigo é estrela sempre.
no rumo certo do vento,
com todas as metáforas,
luzes, imagens
que sua condição de estrela contém.

 

 

in "Poemas do Céu", Ed. Paulinas, de Roseana Murray (foto)


Publicado por KATHLEEN LESSA em 13/07/2013 às 19h10
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Os textos da autora têm registro no ISBN. Plágio é crime.