Kaleidoscópio Literário
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05/01/2014 12h23
A INVEJA (Douglas Ceconelllo)
 

 

A INVEJA

Homens, mulheres, bebês e macacos - estamos todos à mercê do menos nobre dos sentimentos. Ainda bem - porque a inveja pode ser útil para você 

 

por Douglas Ceconello

 

Quem nunca sentiu schadenfreude provavelmente está mentindo. Sem tradução para o português, a palavra alemã representa aquela alegria inconfessável de ver o outro se dando mal. E não há pimenteira, figa ou reza forte que impeça a inveja de atacar, porque querer o que é do outro faz parte da natureza - de macacos a bebês.

Quando sentimos aquela inveja que nos faz desejar os bens materiais, o status ou alguma qualidade, como a beleza, de outrem, a área ativada é a mesma responsável por processar as sensações de dor física ou emocional, segundo um estudo do Instituto Nacional de Ciência Radiológica, em Tóquio, de 2009. Ou seja: invejar dói, de verdade.

Quando o invejoso percebe que a outra pessoa tem um insucesso - fracassa no trabalho, briga com a mulher ou bate o carro, por exemplo -, ele se sente recompensado por isso. E aqui não se fala de maneira figurada: a área ativada no cérebro quando ocorre o schadenfreude é exatamente a mesma que processa sensações de prazer e alegria. "Esse sentimento depende de nossa percepção de quanto uma outra pessoa é bem-sucedida. E essa percepção depende dos traços de cada indivíduo, do que consideramos invejável", afirma Márcia Chaves, chefe do Departamento de Neurologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Quer dizer: a grama do vizinho será tão mais verde que a sua quanto você enxergar. O gramado pode estar seco e com aspecto de assombrado, mas, para quem a invejar, será digno de final de copa do mundo. Mesmo se não houver grama. Isso porque, em maior ou menor intensidade, ninguém está livre da inveja. E isso não acontece porque somos pessoas más. "Os estímulos do ambiente refletem no cérebro e essa atividade cerebral provoca a inveja. Há uma base neurológica constituída para isso", afirma. E não é só isso: existe mesmo a inveja boa e a inveja má - não é mentira daquele seu vizinho que adorou seu carro novo.

O cérebro reage de forma expressiva quando processamos esses estímulos. Primeiro, em um estágio básico - o mais comum -, vem aquela vontade de ter o que pertence a outra pessoa. Ou seja, o vizinho apenas queria ter o seu carro. É um passo além da admiração, mas um comportamento natural. Em uma etapa mais avançada, a inveja se manifesta por meio da felicidade com o insucesso do outro, com o desejo de que algo ruim lhe aconteça - que você bata o carro ou que ele seja roubado. Nesse caso, é o tal do schadenfreude.

Ao longo da história, diversos personagens causaram prejuízos a oponentes que ameaçavam roubar seu status. Em um caso famoso que entrou para a galeria de lendas sobre a inveja, o compositor italiano Antonio Salieri teria envenenado Mozart, então com 36 anos. Segundo o psicanalista Renato Trachtenberg, autor do livro As Sete Invejas Capitais, a história, ainda que não seja verdadeira, é uma boa alegoria do processo individual desencadeado pela inveja. Segundo a lenda, ao se preocupar somente em alcançar o gênio austríaco, Salieri teria desprezado suas próprias qualidades excepcionais. "Além de ser um excelente compositor, ele havia descoberto Mozart, o que mostra uma sensibilidade aguçada. Ele também era um gênio e não precisava invejar ninguém", diz.

As pessoas com maior propensão à inveja em nível patológico são aquelas que têm graves falhas ou lesões nos lobos frontais do cérebro, regiões responsáveis pelo reconhecimento das regras e pelo respeito aos outros. "Muitas vezes, apresentam traços de uma personalidade sociopata, com comportamentos não aceitáveis socialmente. Então, elas não querem mais o que o outro tem, mas sim ser exatamente o que o outro é", afirma Márcia Chaves.

 Uva ou pepino?

Dá para colocar (parte) da culpa na evolução - e nem os macacos estão livres da inveja. Pesquisadores do Instituto Yerkes, em Atlanta, nos Estados Unidos, detectaram traços de inveja em outros primatas. Dois macacos recebiam pepinos para colaborar com a pesquisa, até que um dia um deles ganhou algo mais saboroso: uvas. Aquele que continuou recebendo o pepino se tornou mais hostil durante os trabalhos - não há mais bobo na pesquisa científica.

Na verdade, a inveja teve um importante papel. Em uma época primitiva, desejar o que o outro conseguia era um indicativo de quanto seria possível conquistar em determinado ambiente: se um macaco conseguia dois cachos de banana, mas um outro obtinha cinco, o invejoso percebia que ele também poderia voltar para casa com uma quantidade maior. Esse componente estimulava a competição, que serviu para o desenvolvimento da espécie. "As áreas do cérebro que processam a inveja, entre outras sensações, só aparecem nos primatas e em alguns mamíferos. Trata-se de um mecanismo evolutivo importante. Do contrário, o cérebro sequer nos disponibilizaria esses mecanismos", analisa Márcia Chaves.

O psiquiatra José Toufic Thomé concorda: "É um dos nossos sentimentos mais primitivos. Quando começamos a perceber o mundo, a inveja logo se manifesta: o que o outro tem, eu quero ter ou quero ser. Temos uma carga de instintos que contém inveja. É um comportamento evolutivo: se eu tenho que sobreviver, preciso usar todos os meus recursos, mesmo os mais primitivos", afirma.

Até os bebês são invejosos
Nem mesmo aquele bebezinho fofo sendo amamentado pela mãe está livre de sentir inveja. Conforme conceito da psicanalista austríaca Melanie Klein, a inveja se manifestaria no contato com a mãe, durante a amamentação. Ela chamou esse sentimento de "inveja do seio". Conforme a teoria, o bebê não suportaria a ideia de que não é ele quem produz seu próprio alimento, percebendo uma condição de dependência em relação à mãe. "No momento em que o bebê passa a perceber que o leite que necessita é fruto do seio de uma mãe que tem esse poder de criar esse alimento, o sentimento de inveja é acionado com toda a sua força primitiva, e a reação inicial é de rejeitar ou destruir essa percepção frustrante", afirma César Brito, psicanalista e professor da faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Essa primeira relação desenvolvida entre o bebê e a mãe, que faz com que o recém-nascido perceba que não está sozinho, que há outro de quem sua sobrevivência depende, vai se refletir em novas áreas de sua vida. "O bebê precisa desenvolver a capacidade de tolerar as frustrações, reconhecer que as diferenças existem para que se desenvolva de forma mais saudável", afirma.

Mas, se nem ao longo da vida é fácil aprender essa lição, tentar "curar" a inveja também parece uma missão impossível. "Tirar a inveja de alguém seria como amputar essa pessoa", afirma o psicanalista Renato Trachtenberg. Mesmo os casos mais exacerbados de inveja não têm uma cura definitiva. Não é como uma cirurgia em que a doença é extirpada. Quando atinge níveis patológicos, o sentimento de inveja pode ter desfechos trágicos. Em uma versão moderna do fratricídio cometido por Caim contra Abel, em 2011 um jovem confessou ter matado o próprio irmão por invejar seu sucesso. O crime bíblico foi cometido porque Caim acreditava que Deus privilegiava Abel. Na versão urbana, no Mato Grosso, ambos eram DJs e o assassino reclamou que o irmão era mais requisitado para festas.

Como ainda não há uma base de estudos  neurocientífica  que detalhe todo o caminho percorrido até que o pecado se consuma, uma das abordagens adotadas no tratamento é a psicanalítica: a inveja tem de deixar de interferir em nossa vida. Ou seja, se deixar de invejar é mesmo impossível, pelo menos dá para transformá-la em estímulo.

Demônio - Leviatã

Um dos dez mandamentos dizia: "Não cobiçarás", o que vale para a mulher do próximo, mas também para o carro do próximo, a casa do próximo, o corpo sarado do próximo... O capeta da inveja é representado por um dos príncipes do inferno, o Leviatã. O monstro importado da mitologia já aparecia no Antigo Testamento como dragão marinho, serpente, baleia e até como um crocodilo, disposto a engolir suas vítimas sem piedade.

Baile de máscaras
Cobiça é querer o que não se tem.
Ciúme é uma relação que envolve um terceiro, uma disputa por afeto ou atenção de algo/alguém que já se conquistou

Inveja é uma relação dual: alguém quer ter ou ser o que o outro já conquistou ou é.
Schadenfreude é o êxtase do invejoso: a alegria que ele sente quando o invejado fracassa.

Admiração parte de um vazio, do princípio de que algo está faltando  só admiramos o que não temos: assim, pode ser considerado um tipo inicial de inveja

A inveja está na cabeça
O mais dissimulado dos pecados provoca sofrimento, alegria e depressão. Os estímulos do ambiente refletem no cérebro, que processa a inveja.

Eu quero
A serotonina é responsável pela inveja. Pessoas com problemas de comportamento registram a falta desse hormônio.
Inveja que dói
Quando a inveja se manifesta, é ativada a área do cérebro conhecida como córtex cingulado anterior, a mesma em que é processada a sensação de dor física.
Benfeito
Ao sentir prazer pelo insucesso alheio, a área cerebral estimulada é o estriado límbico, a mesma região responsável pelos sentimentos prazerosos, de alegria ou recompensa.
Azar o seu
Pessoas com lesões ou falhas nos lobos frontais do cérebro são mais propensas à inveja. Dependendo do estágio, a inveja exacerba os sentimentos de injustiça e desigualdade, quadro que pode evoluir para a depressão clínica.
Tô nem aí
Pessoas com coágulos ou lesões no córtex pré-frontal ventromedial (área ligada a condutas sociais e tomada de decisões) tendem a não sentir inveja ou prazer pelo insucesso alheio.


Quando a inveja não é tão ruim assim
Morrer de inveja do colega mais bem-sucedido pode servir de combustível para te levar a galgar degraus no trabalho ou na escola

Você torceria o nariz para um currículo profissional que contivesse a inveja como uma habilidade. Mas o fato é que o pecado pode ser um tremendo combustível para o desenvolvimento. Em outras palavras, invejar o sucesso alheio, em um ambiente competitivo, pode ser o que faltava para ampliar a produtividade.

Não importa se é na escola, na família, no trabalho, entre amigos. Somos incentivados a querer sempre mais, mantendo um modo de vida e uma forma de pensar baseados no embate. "Há um estímulo à competição. A partir daí, as pessoas reagem de diferentes maneiras: algumas são estimuladas, outras sofrem", diz Márcia Chaves, do departamento de Neurologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Nesse cenário, a inveja é uma via de mão dupla: provocar o desejo alheio, convidar o outro ao pecado, é encarado como uma espécie de antídoto contra os próprios maus pensamentos. "Existem pessoas que querem se livrar da sua inveja fazendo com que alguém as inveje", afirma o psicanalista Renato Trachtenberg. Por outro lado, há quem se sinta desconfortável em progredir ou adquirir bens, com medo de se tornar vítima da inveja.

Inveje, mas trabalhe
Aquela história de pontuação, metas de vendas, equipes contra equipes para chegar ao melhor resultado, como algumas empresas estimulam, pode ser saudável? A inveja pode ser encarada como uma forma de aumentar a disputa entre os trabalhadores e melhorar a produtividade. Essa relação pode ser positiva para o crescimento das empresas e dos próprios funcionários. Mas, em estágios avançados, gera prejuízos para as equipes. "A inveja está presente no mundo corporativo. As pessoas acabam fazendo de tudo para permanecer em seus cargos ou subirem na hierarquia", afirma a psicóloga Glaura Verdiani, autora da tese Um Estudo Sobre a Inveja no Ambiente Organizacional. O verdadeiro impulso motivacional dos empregados não está mais em fatores externos como dinheiro e relacionamento interpessoal, mas em aspectos internos, dependendo do sentido que cada indivíduo atribui ao trabalho. Essa mudança de percepção revolucionou o gerenciamento corporativo. Se a motivação parte de cada um, a inveja impulsiona o empregado na disputa dentro da empresa.

Em teorias da psicologia aplicada à administração, acredita-se que, depois de compararmos nosso insucesso ou fracasso com o dos colegas, tendemos a buscar um equilíbrio em relação aos outros. "Por exemplo, se o indivíduo constatou que o esforço-recompensa do outro foi superior ao seu. É nessa condição de estar `sub¿ em relação ao outro que nasce a inveja, solapando o impulso motivacional", aponta Glaura Verdiani. Durante a pesquisa, o que a psicóloga percebeu é que, em vez de o trabalhador ficar desmotivado pela inveja, ele acaba sendo estimulado por ela. Para Trachtenberg, o ambiente empresarial "estimula parentes próximos da inveja, como a voracidade, a avidez e a rivalidade". A lição é: vale, sim, invejar, mas só se for para subir pelos próprios méritos.

 A inveja pelo mundo

A concepção de inveja muda conforme diferentes culturas e religiões

Na Grécia, cinco séculos antes de Cristo, a inveja era encarada como um comportamento político, uma condição inevitável a ser enfrentada por quem obtivesse sucesso. Em Atenas, havia votação para expulsar alguém da cidade por dez anos. Esse exílio era o Ostracismo, que vitimava aqueles que conseguiam muito poder.

No Islamismo, a inveja, ou hassad, é abordada como doença espiritual corrosiva que destrói e anula todas as boas ações praticadas pelo invejoso. Após admirar um bem ou sucesso alheio, é comum usar a expressão "É a vontade de Deus" para demonstrar que não se está sendo invejoso, mas, sim, homenageando o outro.

No Judaísmo, a inveja só é considerada pecado quando existe o desejo de tirar algo do outro. Quando tem o caráter de admiração, é vista como estímulo para o desenvolvimento material e espiritual. Ficou consagrada a expressão "inveja santa" ou "inveja boa", incentivo para alcançar os objetivos de crescimento.

No Budismo, a inveja é encarada como a conjunção da cobiça e do ciúme, sentimentos que impedem o alcance do nirvana, o paraíso. A alma dos invejosos reencarna no reino Asura, pertencente a semideuses rebeldes e  frequentado  por pessoas que haviam tomado atitudes positivas, mas motivadas pela inveja.
 
 
 
imagem: Sophia Loren e Anita Ekberg

Publicado por KATHLEEN LESSA em 05/01/2014 às 12h23
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03/01/2014 00h35
PARA ALÉM DO NIILISMO (Luiz Felipe Pondé)

Folha de São Paulo  __   Ilustração: Alexey Kurbatov

 

O leitor sabe que meu pecado espiritual é o niilismo. Enfrento-o dia a dia como qualquer moléstia incurável. O tema já foi tratado por gênios como Nietzsche, Turguêniev, Dostoiévski, Cioran. Deixo meu leitor em companhia desses gigantes, muito melhores do que eu.

A tragédia também me acompanha em todo café da manhã, essa concepção grega de mundo que julgo a mais correta já pensada. Aqui tenho grandes parceiros como o autor da tragédia ática Sófocles (entre outros), o filósofo Nietzsche, o dramaturgo Shakespeare e os escritores contemporâneos Albert Camus e Philip Roth.

Ambos, niilismo e tragédia, são visões de mundo que arruínam a vida. Diante deles, ateísmo é para iniciantes. O ateísmo só é aceitável quando blasé e sem associações de ateus militantes. Para niilistas como eu, o ateísmo crente em si mesmo é brincadeira de meninas com fita cor-de-rosa amarrada na cabeça.

Ando de saco cheio do niilismo e da tragédia, apesar de continuar experimentando-os todo dia. Em termos morais, a virtude máxima para ambos é a coragem, e o vício mais a mão, a covardia.

Nos últimos tempos, tenho me interessado por outra virtude, a confiança, essa, tão difícil quanto a coragem, uma vez tomada a alma pelo niilismo e pela tragédia. É sobre ela que quero falar nesta segunda-feira, dia normalmente difícil, acompanhado do "bode" do domingo e da monotonia do dia a dia que recomeça imerso num sono que nunca descansa, porque sempre atormentado pela dúvida com relação ao amor, à família, ao trabalho e à viabilidade do futuro.

Meu maior pecado como escritor é jamais enganar, jamais querer agradar. Essa é minha forma de prestar respeito a quem me lê semanalmente. O caráter de alguém que escreve é medido pela ausência de desejo de agradar a quem o lê.

Amar cães e confiar neles é mais fácil do que amar seres humanos e confiar neles. Por isso, num mundo atormentado pela dúvida niilista, ainda que em constante denegação dela, tanta gente se lança à defesa melosa de cães e gatos e exige carne de frangos felizes na hora de comer em restaurantes ridículos.

Quero propor a você duas obras. Um filme e um livro que julgo entre os maiores exemplos da arte a serviço da confiança na vida.

O filme "As Damas do Bois de Boulogne", do cineasta francês Robert Bresson, de 1945, é uma pérola sobre a confiança na vida e nos laços afetivos. Bresson é um cineasta muito marcado pelo pensamento do escritor George Bernanos, grande anatomista da alma e especialista em nossa natureza vaidosa, mentirosa e, por isso mesmo, desesperada. Coisa para gente grande, rara hoje em dia, neste mundo governado por adultos infantis.

O filme trata da vingança de uma mulher belíssima contra seu ex-amante (que a abandonou), um homem frívolo e covarde por temperamento. Essa vingança se constitui na aposta de que ele e a mulher que ela "contrata" para sua vingança agirão do modo esperado. Sua intenção é fazer com que seu ex-amante se apaixone por essa mulher "contratada", uma prostituta.

O homem é mantido na ignorância da vida pregressa de sua noiva até depois do casamento. O que a mulher abandonada não contava é que a prostituta se apaixonasse pelo covarde, levando-o a transformação inesperada de caráter.

O amor também é personagem central da obra do dinamarquês Soren Kierkegaard "As Obras do Amor", da Vozes. Esse livro é o texto mais belo que conheço sobre o amor na filosofia ocidental.

Segundo nosso existencialista, o amor tudo crê, mas nunca se ilude porque, assim como a desconfiança e o ceticismo, o amor sabe que o conhecimento não é capaz de nada além do que fundamentar o niilismo, o ceticismo e o desespero.

O amor é um afeto moral, não um ato da razão. A razão não justifica a vida. O amor é uma escolha de investimento na vida, uma atitude, mesmo que a razão prove a falta de sentido último de tudo.

Ingênuos são os niilistas e céticos que consideram a desconfiança um ato livre da vontade. A desconfiança é uma escravidão. A aposta na vida é que mostra o caráter maduro de mulheres e homens.

Boa semana.

Luiz Felipe Pondé

 

 


Publicado por KATHLEEN LESSA em 03/01/2014 às 00h35
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26/12/2013 15h06
INVICTUS (William E Henley)

Autor: William E Henley
Tradutor: André C S Masini

 

 

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.


Publicado por KATHLEEN LESSA em 26/12/2013 às 15h06
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16/12/2013 22h45
UMA ALMA EM AGONIA (Luiz Felipe Pondé)

 07/10/2013 - FSP

 

Outro dia, dirigindo pelo trânsito de São Paulo, ouvi uma música da Lana del Rey que me chamou atenção, pela ideia que nela se repetia: o medo sentido por uma mulher de ser abandonada por seu amado um dia, quando sua beleza e juventude acabassem e restasse apenas sua "aching soul" (sua alma em dor ou em agonia). Uma letra romântica banal, como todo clichê.

Mas quem em sã consciência negaria que essa mesma letra banal descreve a dor de todos nós, homens e mulheres que envelhecem e perdem a beleza dia após dia? Acredito mais nessa letra de música do que em inúmeros textos sofisticados sobre "relações entre sexo, afeto e poder".

Cada dia que passa, temo pela irrelevância dos estudos acadêmicos das chamadas ciências humanas, devido ao que o intelectual americano Thomas Sowell chama de alienação da classe "ungida" que somos nós, os intelectuais.

Essa música seria facilmente acusada de repetir a "ideologia dominante" (para mim, esse conceito tem a mesma validade de dizer que algo acontece porque Saturno está na casa sete...) e de que esse medo é simplesmente "culpa" da opressão do conceito de beleza capitalista ou sexista. Pensar que cultura pop seja simples sintoma da "ideologia dominante" é ser incapaz de enxergar o óbvio.

A vida é clichê, por isso, temo, revistas femininas logo serão mais relevantes no debate sobre comportamento e afetos contemporâneos do que estudos acadêmicos. Seria essa, afinal, a vingança do jornalismo, muitas vezes menosprezado por nós, intelectuais, contra a soberba dos ungidos que nada entendem das agonias de carne e osso? Talvez a condição de escrever sob o gosto de sangue e de saliva que tem a trincheira da vida real dê às revistas femininas mais consistência do que as elaborações sem corpo dos especialistas em afetos.

O filósofo Francis Bacon (séculos 16-17) tirava sarro da "baixa escolástica" e suas questões sobre quem puxava o burro, quando se puxava um burro com uma corda, se era a pessoa ou a corda que puxava o burro... (risadas?). Penso que, em 500 anos, rirão de nós da mesma forma quando se diz hoje em dia que o medo de uma mulher (ou de um homem) de ser abandonada é sintoma de "opressão social", e que pessoas emancipadas não sofrem com isso. O conceito de opressão virou um grande fetiche dos intelectuais.

Suponho que assim como os textos de Sade (considerado lixo no século 18) hoje são parte do cenário filosófico, em 500 anos as revistas femininas serão mais importantes para a compreensão do que pensamos hoje do que toda a parafernália de teorias sobre "relações de poder".

Um adendo: vale salientar que Sade não ficou importante porque é o ancestral de toda teoria que relaciona sexo à perversão, mas sim porque ele relaciona sexo, afeto e a crueldade de nossa natureza humana e da natureza biológica como um todo.

Talvez um dos maiores medos humanos e que move o mundo desde sempre seja justamente o medo de perder a beleza e a juventude, e se restará alguém ao nosso lado quando formos apenas uma alma em agonia. Já que as ciências humanas mentem, a esperança é que as revistas femininas falem a verdade que não quer calar: ao final, temos mesmo é medo de sermos feios e mal-amados.

Por fim, recomendo vivamente o livro "Não se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo" (Nova Fronteira), de Nelson Rodrigues, escrito sob o pseudônimo de Myrna, sua rápida coluna de 1949 no "Diário da Noite". Esta "mulher" Myrna é uma sábia. Falaremos dela em 500 anos.

Revistas femininas e autores como Nelson Rodrigues são acusados de moralismo. Antigamente o moralismo relacionava sexo, afeto e demônios. Incrível como não se vê que hoje o verdadeiro moralismo está nas teorias que relacionam as formas comuns (dos meros mortais) de afeto e sexo a "frutos da opressão da mulher".

Aprendemos a negar nosso medo com teorias sofisticadas, mas o medo sempre aparece. Ficou chique dizer que se é emancipado, quando na realidade nem só de liberdade vive o desejo, mas também de pecado, medo e vergonha. Como dizia Nelson, "o desejo também precisa de seu claustro".

ponde.folha@uol.com.br  


Publicado por KATHLEEN LESSA em 16/12/2013 às 22h45
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16/12/2013 22h26
LITERATURA COMO CURA (Luiz Felipe Pondé)
21/10/2013 – FSP
 
Hoje quero falar de dois sintomas que marcam nossa época. O primeiro sintoma é a falação ruidosa de nosso mundo; o segundo é a ideia de que o mundo sofre porque não nos amamos e que tudo se resolveria se nos abraçássemos e parássemos de sermos gananciosos.

Fala-se demais hoje. Todos têm opinião. Até jovens de 20 anos são chamados a dar opinião sobre o mundo e a sociedade, quando mal sabem arrumar o quarto. E quando se elegem crianças de 25 anos como arautos da sociedade (adulto que faz isso, o faz, normalmente, para ter discípulos fiéis e fanáticos, ou porque é bobo mesmo), o resultado é que acaba se pensando que o mundo começou, como diz um amigo meu muito esquisito, em "Woodstock".

Quando se pensa isso, acaba-se imaginando que o problema do mundo é mesmo aprendermos que "all you need is love"... Infelizmente, a humanidade é mais complicada do que pensa nossa vã inteligência woodstockiana. Contra essa visão infantil da realidade (este é o segundo sintoma do qual falei acima), proponho a leitura da obra do grande crítico norte-americano Edmund Wilson. Vou a ele já; antes, quero voltar ao problema do ruído mais especificamente (o primeiro sintoma do qual falei acima).

Somos um grande mundo ridículo e falastrão. Decorrente dessa falação, um ruído infernal toma conta do dia a dia. O silêncio, às vezes, é um dos maiores indicativos de maturidade, não só de uma pessoa, mas de uma civilização.

Estou falando isso por conta de um breve ensaio que caiu na minha mão esses dias, parte integrante do volume "Best American Essays 2013", editado por Cheryl Strayed.

O ensaio ao qual me refiro foi escrito pela prêmio Nobel Alice Munro e chama-se "Night". Nele, a autora conta a operação que fez quando criança para tirar o apêndice e uma "coisa do tamanho de um ovo de peru". Munro compara o comportamento atual diante de casos como o dela e o comportamento de seus pais na época. A conclusão é que hoje se falaria como o diabo do risco que ela corria na época. Mas, ao contrário, pouco se falou do assunto, "respeitando o medo" sem falação. Conta Munro que, nessa época, ela dormia num beliche com sua irmã mais nova (moravam numa espécie de granja), e que numa noite olhou para a irmã e pensou em sufocá-la.

A partir daí, não conseguia mais dormir, pensando no ímpeto que tivera de matar sua irmã. Numa das manhãs seguintes a suas noites de insônia, encontrou com seu pai, todo vestido chique, saindo de casa de manhã muito cedo. Contou para ele o que pensara e o horror que sentira.

Seu pai simplesmente lhe disse que esquecesse aquilo e que essas coisas passam. Depois, adulta, lembra como o modo simples de falar do pai a acalmou profundamente. A pequena Alice nunca mais teve insônia.

Na sequência, a prêmio Nobel comenta que nunca perguntara ao pai para onde ele ia tão cedo e tão elegante. Perguntou-se se ele ia ao banco renegociar a dívida da família ou ver a mulher que amava, mas com quem não podia ficar porque amava sua família... Silêncio. Nem uma linha de rancor. Hoje, escreveriam uma tese sobre como seu pai poderia ter sido um homem desatento ou, quem sabe, infiel. Ao lembrar do seu pai no momento do reconhecimento em que recebera o prêmio, Munro pensa em como ele teria ficado orgulhoso de sua pequena filha insone.

Nessas horas, tenho saudade do passado e lamento como nos transformamos em adolescentes barulhentos que se levam demasiadamente a sério.

O segundo autor que quero comentar é Edmund Wilson, um dos últimos críticos literários, segundo Paulo Francis, a enfrentar a literatura sem se esconder atrás de grandes teorias abstratas (que se querem "concretas").

No volume editado por Francis pela Companhia das Letras em 1991, "Onze Ensaio - Literatura, Política, História", esgotado, aparece sua "visão de mundo": a história é um longo processo através do qual as civilizações se devoram, criando e destruindo, em círculos, indo para lugar nenhum. Concordo.

Pura coragem intelectual, que tanto faz falta hoje, nesta época de líderes adolescentes que creem em Woodstock como modelo de sociedade.

ponde.folha@uol.com.br  

 

 


Publicado por KATHLEEN LESSA em 16/12/2013 às 22h26
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Os textos da autora têm registro no ISBN. Plágio é crime.